Me tiraram o direito de ser, ter, ver, ouvir e falar. Disseram que seria melhor pra mim se ficasse calada. Disseram que o que eu ouvi nunca foi falado, e o que eu vejo não existe. Mandaram eu apenas caminhar sem olhar para trás, sem levar nada comigo. Impuseram que tudo deveria ficar... Os livros, as canções, os amores... Mandaram eu esquecer até mesmo de quem eles tiraram de mim. Tentaram me fazer mudar de ideia sobre todo esse papo de vingança, pra eles a justiça foi feita a partir do momento em que ele foi apagado.
É conveniente pra eles. Eles matam a classe perigosa e continuam manipulando os ignorantes. Ele foi apenas mais um. Eu não deveria ficar surpresa, pois afirmaram que ele foi difícil.
Ele me dizia que a ideologia é uma piada. Que depois que você entra e mostra seu rosto, eles te procuram, até encontrar. O encontraram. Só isso. Ele foi dizendo que estava tudo bem, foi caminhando. Estava esfaqueado, mas foi caminhando. Ele levava a sério o que fazia, e tinha um sonho, como todo menino homem. O sonho foi com ele. Não sei se mais alguém se importa tanto... Se mais alguém quer tanto justiça como eu. Afinal, ele não vai mais voltar, ele foi pra não mais voltar.
Mas ele voltou uma única noite pra mim. Não falava, mas sorria como nunca antes. Corria, zoava, expressava com o corpo gestos... Aqueles gestos me pediam calma, pediam para que eu fosse mais de vagar. Já disse o quanto ele sorria?! Se o céu existe, estão conhecendo o punk mais cretino do mundo! Não garanto que ele tenha encontrado o que procurava, mas ele sabe que ainda estamos procurando por ele. Ele tem certeza de que não vamos desistir. É como se ele dependesse disso. Como se ele sentisse todas as vezes em que eu o agradeci por não ter apenas passado pela minha vida, mas deixado um pedaço dele comigo. "Eles podem matar os idealistas mas nunca seus ideais." Quantos mais morrerão?






